02 abril, 2012

Um carinho natural

Chove. No alpendre, a companhia silenciosa d'a lugar a uns afagos ligeiros e esporádicos. A chuva pa'ra e espreguiçando-se ele segue o seu caminho sem olhar para trás. Depois de alguma distancia percorrida pa'ra, dirije-lhe o olhar e espera. Ela não responde. Olhando-o fixamente mantem-se imovel, sem fazer a menor intencao de sair de onde esta.
Reinicia a chuva miudinha, irritante, o sol vai percorrendo o seu habitual caminho no horizonte, que hoje, embora escondido, se adivinha e a luz acompanha-o no caminhar em direcao ao poente. Fica fresco o ar da tarde. Abro a porta e chamo-a. Ela entra sem hesitar e sem sequer parecer preocupar-se com o paradeiro do companheiro. Enrosca-se na almofada costumeira e fecha os olhos.
Ouco o arrufar e os miados familiares e num salto ela esta de novo junto a porta como se de subito se recordasse duma existencia aparentemente esquecida. Ao reverem-se cumprem a danca costumeira entrelacando as caudas e acariciando a face e os bigodes numa espontanea demonstracao de uma saudade que e quase impossivel ser de tal ordem.
Vao-se, correndo em brincaddeira pelo corredor demonstrando o carinho que os une desde que para ca vieram os dois. Sem cobrancas, sem exigencias, mantendo cada um as suas preferencias, convivem, brincam, acarinham-se ou arrufam-se conforme a necessidade e as circunstancias, mas nunca se esquecem dos rituais de agradecimento diarios pela existencia um do outro.
Sera que fazemos o mesmo com o nosso companheiro, ou de todas, a primeira coisa que fazemos e' cobrar? Teremos nos ainda tanto assim que aprender com a natureza?